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A Cavalaria Medieval

Escrito por Leandro Sicorra Wilemberg Published on .

Maj Cav Salgueiro Maia – Exército Português

Existem preferencialmente três fontes de informação sobre o que foi a Cavalaria na Idade Média. São elas : o “ adoubement “ ( ato de entrega ao novo cavaleiro de suas armas e vestimentas ), as Canções de Gesta e os Romances Cortezes. A mais antiga descrição da cerimonia do “ adoubement “ data de 950 e foi redigida na Abadia de Saint-Alban, em Mogúncia. Tem sido muito discutido o valor histórico das Canções de Gesta e dos Romances Cortezes, pois que normalmente nos contam as aventuras, mais ou menos lendárias, de alguns cavaleiros, muito afastadas da realidade. É de assinalar que a canção de Roldão ( “ La Chason de Roland “ ), a mais conhecida das canções de gesta francesas, descreve o ataque de surpresa na retaguarda das hostes de Carlos Magno ( que a canção descreve como tendo um ar patriarcal, de frondosa barba florida ) pelos mouros, e que na realidade, foi efetuada por Gascões.

É através destes textos e informações que temos de descobrir, eliminando a fantasia, o que foi a Cavalaria  medieval, cadinho de dois ideais opostos – a caridade do cristão e a força do guerreiro.

Cavalaria, palavra mágica da Idade Média,  cristalizou todos os ideais e interesses terrenos dos governos, que dela se serviam para fins políticos, sem ligação com o Ideal que presidiu a sua origem.

Existem várias teorias definindo a origem da Cavalaria e, em especial, a sua cerimonia pública de investidura. Existem os que defendem a sua origem romana, como o padre Honorato de Saint-Marie que viu na Cavalaria, vestígios da antiga ordem eqüestre dos latinos, e no “ adoubement “ a troca da túnica de adolescentes pelo traje varonil do guerreiro romano.

Existe outra corrente de pensamento que reconhece uma origem árabe na Cavalaria. Adalberto de Beaumont, nas suas investigações sobre a origem do brasão e em especial sobre a flor de lis, expõe-nos o raciocínio dos que seguem esta linha de pensamento, que é o seguinte : “ ao pensarmos em cavaleiros, pensamos em brasões, ao pensarmos em brasões, pensamos em cruzados e na influencia da civilização árabe na Europa Ocidental; ora como foi aos árabes que os cavaleiros foram buscar uma parte de sua heráldica,  foi também destes que trouxeram a idéia da Cavalaria “ .

 Mas de todas estas teorias, a que tem mais defensores é aquela que diz ser a cerimonia da Investidura de origem germânica. A dar-lhe razão, Tácito na capítulo XIII da sua Germânica ( “ DE SITU, MORIBUS ET POPULIS GERMANIA LIBELLOS “ , 98 DC  ) descreve a iniciação do guerreiro germânico; esta cerimonia tem muito em, comum com a cerimonia da Investidura da Cavalaria Medieval .

 Falemos agora do recrutamento na Cavalaria Medieval.

 Através de vários documentos, pode-se constatar que qualquer homem podia ser armado cavaleiro, se desse provas de sua coragem; assim, sempre antes e depois das batalhas travadas pela Cavalaria, havia grande número de homens armados cavaleiros. Nada impedia que um Senhor Feudal  desse liberdade a um servo e depois o armasse cavaleiro, quando isso fosse merecedor. Terá sido essa possibilidade aberta a todos os homens, independentemente de sua posição social, de saírem da mediocridade, que deu à Cavalaria o seu caráter universal.

 Para ser cavaleiro tinha de haver uma aprendizagem. Os filhos dos guerreiros eram normalmente entregues aos cuidados do Senhor feudal, para serem educados pelos seus homens de armas; e porque o Cavaleiro necessitava de equipamento e ele era caro demais para as suas possibilidades, interessava que o novo Cavaleiro tivesse um padrinho rico e que lhe oferecesse o equipamento necessário.

 A estes aprendizes de cavaleiros chamavam pagens se eram de ascendência nobre, ou escudeiros se tinham origem plebéia. Com o correr dos tempos, o ser pagem tornou-se uma posição honorífica, pretendida pelas melhores famílias dos reinos da Europa.

 A instrução desses aprendizes de cavaleiros, processa-se através de três formas : primeiro trata do armamento defensivo e ofensivo de seu amo ( couraça, elmo, cota de malha, lança, espada, etc.. ); depois , sob vigilância dos mais velhos, começa com o jogo de pau e introdução ao cruzar armas; por fim , acompanha o seu amo nas caçadas e na guerra, até surgir a altura em que será armado Cavaleiro.

 Como pagem ou escudeiro não poderá entrar na guerra, mas podia ir em auxílio dos seus partidários, ou participar na limpeza que se seguia a todas as batalhas. O aprendiz acabava por se embrenhar no combate, contra o que a lei não escrita, da Cavalaria, não lhe permitia.

 Chegamos portanto à altura solene em que o novo guerreiro vai ser armado Cavaleiro, cerimonia que, com os tempos, foi crescendo em complexidade, chegando quase a uma burlesca pantomina. É difícil precisar como ocorria esta cerimonia, pois os documentos que nos chegaram são bastantes imprecisos e sem unanimidade de precisão, pelo que se deduz que a cerimonia não estava sujeita a regras fixas, mas dependia da moda do momento. Uma cerimonia desse gênero era bastante concorrida, até porque terminava sempre em festa que podia demorar vários dias.

 O cerimonial de investidura compreendia, normalmente, quatro partes : a confissão e a velada de armas, a comunhão, a entrega de armas e a “ collée “ ( palmada dada no pescoço do investido, depois de a este terem sido calçadas as esporas e o cinturão com a espada), e por fim a festa.

 Outra constante da Cavalaria, que é de se realçar, é o fato de que qualquer Cavaleiro podia armar outro Cavaleiro; mas, normalmente, somente os grandes Senhores armavam novos Cavaleiros, uma vez escolhidos para padrinhos, devido ao seu maior apoio econômico. A cada novo cavaleiro competiam funções de chefia sobre os não cavaleiros no Exército do seu Senhor. Abstraindo disso, não havia nenhuma regalia especial relativa aos cavaleiros. Os seus deveres eram vários e ficavam definidos no seguinte lema : “ A minha alma a Deus, a minha vida a Deus, a Honra a mim mesmo “.

 A Cavalaria nascida pela força das circunstâncias esteve sujeita a várias pressões, como por exemplo, a da Igreja que transformou a cavalaria fazendo-a passar da universalidade de espírito para a união espiritual e material através das Ordens Monástico-Militares; ordens estas com um espírito de corpo que as separava, afirmando a individualidade de cada uma. Depois as pressões dos governos que ora se insurgem contra elas, ora tentam aproveitar para assuntos de seus interesses. Por fim, o aburguesamento dos costumes que acarreta, como que a domesticar a  Cavalaria,  a sua passagem a elemento decorativo.

 Depois do século XV, praticamente já não existe Cavalaria nem poderia haver pois que as sociedades tinham evoluído e a cavalaria estava reduzida ao espantalho que é o “ Engenhoso Fidalgo D. Quixote de La Mancha “ , de Miguel de Cervantes. A Cavalaria Medieval , para além de seus altos e baixos, foi a paternidade, a união e guia dos soldados cristãos, cada um nela introduzido pela mão de um de seus pares, e reconhecido então por todos como tal.