A Cavalaria na Segunda Guerra Mundial

Existem idéias generalizadas de que a Cavalaria a cavalo não foi empregada na 2ª Guerra Mundial e que nas poucas ações conhecidas de forças montadas no período 1939 – 1945 seus resultados foram negativos. Nada é mais distante da verdade que tais afirmações. Se o blindado, a aviação, a artilharia e, mais tarde, as armas atômicas foram a chave do sucesso nos campos de batalha nos diferentes teatros de operações, não podemos menosprezar as ações realizadas por Unidades a cavalo na maior parte das campanhas conduzidas pelos principais países beligerantes. Não se pode negar, também, que as maiores potências militares da época estiveram influenciadas pelo desenvolvimento das forças motorizadas e blindadas, nas quais viam o substituto para a Arma que no passado, decidia as batalhas, a Cavalaria a cavalo, à qual foram relegando, aos poucos, um papel secundário e reduzindo suas unidades, sem entretanto dissolvê-la por completo, pois ainda visualizavam seu emprego em determinadas missões e tipos de terreno.

Alguns países criaram unidades mistas, mecanizadas e a cavalo, para cumprir missões de reconhecimento, dando na maior parte das vezes, magníficos resultados, já que ambos se completavam. Nos deslocamentos a grandes distancias ou em profundidade no campo de batalha se empregavam as unidades mecanizadas, pelas suas características próprias. Na zona de marcha de uma unidade ou para atingir e manter objetivos distantes por certo tempo, empregavam as forças a cavalo, deslocando-as através campo, com menores encargos logísticos e aproveitando suas características de boa mobilidade e sigilo nas operações, principalmente nos deslocamentos noturnos.
Vários países, no período entre o final da 1ª Guerra Mundial e o início da 2ª Guerra Mundial, não quiseram evoluir a Arma de Cavalaria, como à suas demais Armas. Ao iniciar-se o conflito, os países, como a Rússia, que mantiveram suas Grandes Unidades a cavalo, evoluindo seu adestramento e tática de combate, puderam obter significativos resultados durante as operações.
A ação das Unidades a cavalo russas foram sentidas no leste, nas operações realizadas contra o XVI Exército Alemão, na frente de Staraya, a 500 Km ao noroeste de Moscou. Alí as unidades de cavalaria a cavalo tiveram uma de suas mais felizes atuações na manobra de ala, com seus incessantes ataques ao flanco e retaguarda do exército inimigo, para frustrar a retirada das tropas que queriam livrar-se do cerco e para evitar a chegada de suprimentos, contribuíram em grande parte para o aniquilamento de muitas unidades alemãs.
Ao iniciar-se a contra ofensiva russa no inverno de 1941, foram muito numerosas as intervenções da Cavalaria contra os flancos do adversário, demonstrando sua aptidão para deslocar-se sobre a lama e nas regiões nórdicas sobre o gelo, em cooperação com tropas de esquiadores.
Uma das missões em que a Cavalaria se mostrou mais eficaz foi na de incursão. Infiltrando-se pelos espaços existentes entre as forças naquelas frentes imensas, acertou fortes golpes no inimigo, surpreendendo postos de comando e estados-maiores em deslocamento e hostilizando, incansavelmente, as comunicações. Os comandos alemães tiveram de preocupar-se seriamente com estes audazes esquadrões, empenhando-se em exterminá-los, para isto localizando em todos os pontos importantes das estradas e pontes, fortes destacamentos dotados de muitas metralhadoras, os quais a Cavalaria russa logrou burlar facilmente, sem o temor de Ter de enfrentar uma Cavalaria equivalente.
Na perseguição, a Cavalaria russa atuou energicamente, apoiada pela aviação, tal como ocorreu na retirada das tropas alemãs na frente KALININTULA. Os alemães, por não terem Cavalaria, e por ser o terreno inadequado para o movimento de tropas mecanizadas, não tinham como impedir que as ações da Cavalaria russa.
Sem dúvida, em mais de uma ocasião, devido possivelmente ao descuido na preparação de seus movimentos, na seleção de uma zona de combate ou à sua precipitação em lançar-se ao ataque sem o devido apoio de fogo, as Unidades de Cavalaria russa chocaram-se contra a resistência de seus adversários, que conservaram a serenidade apesar do ímpeto de suas cargas.
Outros países empregaram forças de cavalaria a cavalo durante a 2ª Guerra Mundial, destacando-se:

– a Bulgária, com várias divisões de cavalaria, apoiou apartar de 1941 o exército alemão na frente oriental;
– a China, onde Mao Tse Tung empregou entre os anos 1940 e 1941 11 divisões na frente norte e 3 na frente central, com efetivos aproximados de 100.000 cavaleiros;
– a Finlândia, que durante a guerra do inverno empregou mais de 8.000 cavaleiros;
– a França, em 1940, empregou 5 Divisões Ligeiras de Cavalaria, que estavam organizadas com tropas a cavalo, mecanizadas e motorizadas. Seus efetivos eram de 10.000, sendo 2.200 a cavalo. As unidades de cavalaria a cavalo eram de Couraceiros, Dragões, Caçadores a cavalo e Hussárdos.
Na África a França empregou 5 Regimentos de caçadores da África, 7 Regimentos de Spahis Marroquinos e 1 Regimento Estrangeiro de Cavalaria, pertencente à Legião Estrangeira, e 6 Companhias de Remonta. Houve ainda uma unidade especial destacada na Síria, formada por circasianos, chamados “ granpement callet “. Esta unidade possuía exploradores, carros de combate, elementos a cavalo e artilharia de campanha.
Uma das unidades maios famosas pela sua valentia e patriotismo foi a Brigada de spahis, formada por voluntários franceses e pessoal procedente das tribos beduínas. Esta unidade no início da campanha de 1940 esteve em Luxemburgo, no Somme, no baixo Sena e no Loire. Ao término da campanha, a Brigada Spahis foi a única unidade não derrotada no colapso geral. No exército da França Livre existiu uma unidade chamada “ Goumiers “, que combateu na Itália, incorporada ao Corpo Expedicionário Francês do General Juin.
A Alemanha, apesar de ter empregado grande número de unidades blindadas em todas as frentes, manteve desde o início do conflito a 1ª Brigada de Cavalaria, constituída por dois regimentos a cavalo, com cinco esquadrões. Esta brigada provou sua capacidade na Campanha da Polônia. Mais tarde, mudou sua denominação para 1ª Divisão de Cavalaria, incorporando unidades de infantaria motorizada, de motociclistas, de reconhecimento e de montanha. Seu emprego não teve influência estratégica, mas foi empregada continuamente devido à sua mobilidade. Durante a guerra sofreu inúmeras modificações, de acordo com as necessidades do momento e a situação que vivia o exército alemão.
Os cavaleiros das unidades a cavalo alemãs estavam armados com fuzis 98 – K e com sabre, arma tradicional da Cavalaria. A 1ª DC Alemã esteve na Campanha da Holanda Oriental, assim como na França, cavalgando mais de 1.000 Km em marchas forçadas, havendo apoiado as ações das unidades blindadas do general Guderian. Em 3 de novembro de 1941, na data em que se comemora a festa de São Humberto, patrono da Cavalaria Alemã, a 1ª DC foi apeada, passando a constituir a 24ª Divisão de Cavalaria Blindada, integrando o 6º Exército, na Batalha de Stalingrado.
A Cavalaria a cavalo alemã atuou junto com unidades a cavalo da Hungria, Romênia e Rússia. Com respeito à Rússia, em 1943 foi criada a Divisão de Cavalaria Cossaca do exército alemão, sob as ordens do Ten Cel Panwitz. Esta unidade foi organizada com russos anticomunistas e quadros que pertenceram ao exército czarista. Seus cavaleiros estavam perfeitamente treinados e, inclusive, podiam manejar ou conduzir seu cavalo por meio da voz ou de assobio.
O exército alemão também contou com unidades de cavalaria a cavalo pertencentes ‘às SS, chegando a formar uma força denominada “ Divisão de Cavalaria SS Florian Grey “.
Durante a campanha contra a Rússia, os cavalos alazães , castanhos e pretos tiveram muitos problemas para aclimatarem-se, sendo que os pretos eram muito suscetíveis à fadiga. A cavalhada que deu melhor resultado na campanha russa foi a tordilha ou branca. Estes animais claros tiverem, entretanto, cerca de 75%25 de baixas, resultado da ação da aviação e artilharia.
A Alemanha empregou um corpo permanente de 5650 veterinários, chegando o serviço de veterinária a possuir 13.000 homens. As mulheres foram empregadas no adestramento dos animais e para ensinar os recrutas a montar a cavalo, em pequenos cursos nas unidades , até o escalão regimento.
Foi na Síria, em 1941, onde a Grã Bretanha empregou o “ Yeonmary Regiment “, sendo esta a última unidade a cavalo do Exército britânico. Seus integrantes estavam armados com sabres e rifles . A subunidade de apoio possuía metralhadoras Hotchkiss.
A cavalaria grega combateu contra as forças italianas, húngaras, romenas, búlgaras e alemãs. No princípio da guerra atuou com unidades convencionais e posteriormente, passou a empregar sua cavalaria como força irregular, atuando como guerrilheiros.
A Hungria, a terra dos Hussárdos, combateu ao lado dos alemães na campanha contra a Rússia, dando contínuas provas de sua tradição militar a cavalo.
A cavalaria italiana combateu na Grécia em 1940 e 1941 e apoiou as operações contra os russos, criando o Corpo Expedicionário na Rússia. Na África manteve algumas unidades a cavalo, sendo o 14º Grupo de Cavalaria Colonial o que conquistou maiores louros para a Cavalaria Italiana, até ser destruído.
O Japão empregou a sua cavalaria contra a China, em operações na Península Malaia e na tomada de Singapura.
A cavalaria polonesa merece menção especial, pois contra toda a lógica militar e nem sacrifício inútil de homens e animais, recordou ao mundo a tradicional valentia do homem a cavalo, que se lança contra o que lhe ordenam, sem medir as conseqüências.
Uma de suas unidades mais famosas foi a Brigada de Cavalaria Wolynska, a qual, em 1 de setembro de 1939, entrou em contato com a 4ª Divisão Panzer e teve alguns êxitos parciais, havendo destruído 79 carros de combate e 74 veículos de tipos diversos. No dia seguinte lançou um “ raide “ contra as colunas blindadas da 1ª Divisão Panzer, distinguindo-se dias mais tarde na batalha que se travou próximo a Cyrusova e Wola. Posteriormente, foi derrotada pelos soviéticos no final de setembro, quando se deslocava para a fronteira Húngara.
O 18º Regimento de Ulanos, pertencente à Brigada de Cavalaria Ponovska, realizou a primeira carga a cavalo da 2ª Guerra Mundial, em KroKanty. As demais unidades polonesas realizaram a defesa de seu território, tanto contra os alemães contra os russos. No início da guerra contavam com cerca de 70.000 cavaleiros.
Ainda que algumas das unidades polonesas lograram realizar com êxito pequenas incursões e “ raides” contra os países invasores, a maioria caiu derrotada.
Os Estados Unidos da América foi o primeiro país que realizou a mecanização de suas unidades de cavalaria a cavalo. Nos anos 30 foram criados os 4º e 6º Regimentos de Cavalaria, formando o “ Horse – Mechanized Reconnaissance Regiment “, que transportava os cavalos das unidades em reboques tracionados por viaturas motorizadas. Quando chegavam a um obstáculo intransponível para as viaturas, os cavaleiros desembarcavam seus cavalos e prosseguiam no reconhecimento montados. Quando iniciou a 2ª Guerra Mundial , os americanos não deram a importância devida à esta unidade, realizando a motorização / mecanização de todas as unidades a cavalo.
A única unidade mantida a cavalo foi o 26º Regimento de Cavalaria, nas Filipinas. Esta unidade, estacionada a 85 Km de Manila, tomou parte nas dramáticas batalhas realizadas contra os japoneses.
A União Soviética foi o país que, na 2ª Guerra Mundial, teve as mais numerosas forças de cavalaria a cavalo. A cavalaria soviética esteve sob o comando do marechal Budenny, um antigo oficial da cavalaria czarista.
O emprego da cavalaria soviética foi realizado em operações onde poderia explorar ao máximo suas características de mobilidade e flexibilidade. Suas unidades atacaram os flancos e a retaguarda do inimigo, atuando principalmente contra as extensas linhas de suprimento alemãs, com milhares de quilômetros.
Uma das primeiras operações que participou a cavalaria soviética foi a invasão da Polônia, em 17 de setembro de 1939.
Em 1941 o Exército Vermelho chegou a possuir entre 26 a 30 Divisões de Cavalaria, que formaram a base para a defesa de Moscou. Foram famosos os golpes de mão e as incursões realizadas pelas unidades de cavalaria, atuando em grupos, como guerrilheiros, contra as forças alemãs em retirada.
Os alemães, pressionados pela inclemência do inverno e pelas forças russas, acabaram desenvolvendo táticas especiais contra os ataques de surpresa da cavalaria russa contra suas linhas de suprimentos, seus flancos e retaguarda, infligindo-lhe numerosas baixas. Devido à grande disponibilidade de efetivos, em função de sua grande população, os soviéticos recompletavam rapidamente suas baixas, impondo constante pressão sobre os alemães.
A base das unidades de cavalaria soviéticas foram os Cossacos, ainda que Stalin tivesse procurado destruí-los. Não havia, entretanto, na União Soviética, cavaleiros mais completos que os Cossacos para formar as grandes massas de cavalaria. Estes cavaleiros sempre representaram a cavalaria russa em todas as épocas.
Aos Cossacos se devem, em parte, a vitória sobre as tropas de Napoleão, durante a campanha contra a Rússia em 1812. Sua lealdade ao Czar era famosa, o que levou Stalin a tratá-los sempre com desconfiança, não empregando suas unidade nas operações de maior importância. Os Cossacos constituíram uma das forças básicas do Exército Vermelho, contribuindo para a derrota das forças alemãs em sua retirada, antes do término da 2ª Guerra Mundial.

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