A Cavalaria Napoleônica

Napoleão Bonaparte deu um grande impulso à Cavalaria, empregando-a com acerto e aproveitando inteiramente suas possibilidades.
Recebeu uma Cavalaria produto da Revolução, na qual os Regimentos da monarquia francesa tiveram de ser reorganizados, pois eram formados geralmente pela nobreza e pela aristocracia, gente que , como era natural, era incapaz de cuidar de si só e de seus cavalos. Os primeiros chefes da Cavalaria Napoleônica foram de origem modesta, como o caçador Murat e o hussardo Ney.

Em 1798 a França tinha organizado 29 Regimentos de cavalaria Pesada, 20 Regimentos de Dragões, 23 de Caçadores e 11 de Hussardos. Os êxitos obtidos pelos Couraceiros franceses, que com sua dupla couraça chegaram a ser muito temidos, fez com que os prussianos e os russos voltassem a utilizar a couraça, da mesma maneira que os ingleses após Waterloo.
É bem conhecida a carga dos escoceses cinzentos contra a infantaria francesa, que destruíram uma brigada, capturaram um estandarte e passaram a fio de espada uma bateria de artilharia. Os Couraceiros e Lanceiros franceses contra-atacaram obrigando os escoceses a se retirarem com grandes perdas. É nesta época que a Cavalaria francesa coloca novamente em moda a carga realizada com lanças.
Com Napoleão os Dragões tiveram nova importância, no momento em que se decidiu reunir no campo de Bolonha os elementos que deviam servir para constituir o novo exército francês, determinando-se que os Dragões tivessem um campo especial em Compiegne e que recebessem também uma instrução particular. Napoleão confiou a direção do campo dos Dragões a Baraguey de Hilliers, e para demonstrar a importância que atribuía a esse poeto, tomou para si o título de Coronel General de Dragões.
A importância que o imperador atribuía aos Dragões a cavalo, se destaca em seguida na composição da Reserva Geral de Cavalaria, a qual confiou ao príncipe Murat. Ao lado de uma Divisão de Cavalaria Pesada e uma Divisão de Cavalaria Ligeira, foram organizadas quatro Divisões de Dragões a cavalo e uma de Dragões a pé.
O primeiro planejamento de Napoleão quando organizou o Grande Exército, incluía um desembarque na Inglaterra. Para esta expedição do outro lado do canal da Mancha, havia decidido empregar preferencialmente uma Divisão de Dragões, e para demonstrar a importância que atribuía à essa divisão, determinou que fossem escolhidos os soldados mais antigos e instruídos, melhor treinados tanto a cavalo quanto a pé para integrá-la. Designou para comandá-la o próprio Baraguey de Hilliers. Os Dragões seriam embarcados sem os seus cavalos, por causa das restrições de transporte, mas determinou que se tomassem providencias para que, logo após o desembarque, fossem procurados com urgência cavalos do país invadido para montar a Divisão de Dragões.
Os franceses, como é sabido, não lograram êxito em seu objetivo e, mudando seu planejamento, Napoleão se lançou contra as potências continentais. Os resultados são conhecidos : a marcha realizada sobre Ulm, depois sobre Austerlitz. Este é um exemplo magnífico de uma Cavalaria organizada por um comandante que tem confiança nela, em vista das missões próprias que decidiu confiar-lhe. Durante vinte e quatro dias serviu de vanguarda ao Grande Exército durante a passagem do Reno; explorou o flanco direito e cobriu o movimento envolvente das colunas convergentes até o Danúbio; depois arrojou-se bruscamente sobre a margem direita desse rio. Ao dispersar na Baviera, apoderou-se da linha de Lech; afirmou sua crescente superioridade sobre a cavalaria inimiga nos combates de Rain e de Wertengue, em 8 de outubro de 1805; triunfaram as manobras a cavalo coroadas com o combate a pé dos Dragões; limpou o país entre Lech e o Iller; rechaçou o inimigo em Ulm; interceptou as comunicações da Praça do Sul; voltou a cruzar o Danúbio; tomou parte de forma brilhante nos combates travados abaixo de Ulm; fechou a linha de bloqueio a oeste e deslocando-se rapidamente para o norte, perseguiu, sem descanso, o exército do Arqueduque Fernando, destruindo partes desse exército em cada dia de marcha, e isolou os remanescentes próximo de Nuremberg.
Depois dos êxitos fulminantes do Grande Exército, o imperador ordenou a Murat que “inundasse” o país ao norte da Danúbio. Esta era uma idéia que perseguia desde 1806, quando no dia seguinte à dupla vitória de Jena e Auerstaedt insiste nestes termos : “ Inundai com vossa Cavalaria a planície de Leipzig, em lugar de enviar unicamente alguns correios “.
Para “ inundar “, o comandante da Reserva Geral de Cavalaria não tinha todas as suas divisões, mas o inimigo fraco e desmoralizado, sem contar com armas de fogo potentes, não pode deter os esquadrões exaltados que o perseguiam e atacavam com seus sabres, chegando a conquistar a praça forte de Stettin, que rendeu-se a uma Brigada de Cavalaria Ligeira.
Os Dragões, por considerarem desonroso apearem e combaterem a pé, pediram ao imperador que aligeirasse seu equipamento, para que pudessem combater como Cavalaria Ligeira, o que lhes foi concedido.
O imperador, ao mesmo tempo que satisfazia o amor próprio dos Dragões, satisfazia seus próprios desejos no que se refere à batalha; para dar um golpe decisivo no momento em que considerou psicologicamente adequado, precisou reunir toda a sua cavalaria. Por outro lado, as condições particulares de sua época, permitiam constituir uma Cavalaria homogênea. Pode portanto, realizar um equilíbrio entre a energia própria do fogo, ainda lento do fuzil de pederneira, à energia de choque da Cavalaria. Tratou de fazer a balança pender para esta última, aligeirando-a e voltando a ser manobreira, mas ao mesmo tempo decidiu que toda a Cavalaria, compreendendo os Couraceiros, deveria ser dotada de armas de fogo. Os resultados obtidos pela Cavalaria Imperial demonstraram ser este o equilíbrio desejável para a Arma.
Em resumo, nos últimos anos do império foram adotadas, na Cavalaria, progressivamente, de todas as missões próprias das forças montadas. Nesta época o armamento permitia a homogeneidade que a Cavalaria avidamente desejava. Algumas vezes isto era resultado de um equilíbrio passageiro, que não implicava em nenhuma renúncia do combate pelo fogo.
A Cavalaria francesa até 1870 descuidou vários ensinamentos adquiridos pela Cavalaria Imperial, não conservando as lições que haviam sido legadas, referentes às missões de reconhecimento e segurança, nem levou em conta as relativas ao combate a pé. Não obstante, desde meados do século XIX os progressos do armamento de fogo haviam sido muito rápidos e seus efeitos continuaram a desenvolver-se até os dias atuais. O equilíbrio que tinha sido possível estabelecer-se na época do império logo se rompeu. Tanto a Cavalaria quanto a infantaria francesas estacionaram, não se preocupando com a evolução da táticas e do adestramento. Todos os esforços do exército francês estavam voltados para a organização do exército da África, que adotou os meios e os processos próprios de cada país inimigo que combatia. Nos demais conflitos que se envolveu, México, Criméia e Itália, contou unicamente com a bravura de seus soldados. Assim terminou uma época de esplendor para a Arma de Cavalaria.

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